Vinhos naturais – Naturalmente!

Inicialmente designados ‘vinhos vivos’, ‘vinhos autênticos’ ou, simplesmente, raw (crus, em bom português) ou naked (nus), os agora consensualmente designados vinhos naturais, mais do que uma tendência, são um verdadeiro movimento cada vez mais expressivo no universo vitivinícola.

Saberes de antanho numa nova gramática

Enraizado numa consciente filosofia que fala ao coração de todos aqueles que se preocupam com as prementes questões ambientalistas biofriendly e ‘bioagradáveis’, que questionam e combatem a produção massiva e uniformizada, a qual, por via de processamentos químicos e artificialidades, tudo transforma em industrializações à escala global, os vinhos naturais impõem outros dialetos, linguagens orgânicas que apelam ao respeito pela Natureza e sua biodiversidade e que recuperam saberes de ontem, em busca das novas coisas de amanhã. Fazem uso de uma gramática atual, que joga com habilidade, engenho e criatividade a cartilha da cultura biológica e biodinâmica e da urgência de boas práticas de sustentabilidade em todas as frentes. Métodos de produção que rejeitam adubos químicos, aditivos ou práticas corretivas, a favor de ancestrais formas de fazer, onde compostagem, estrumagem e leveduras autóctones são sujeitos principais de todo o processo de fertilização dos vinhedos e de fermentação do vinho. São, na mais purista acessão do termo, vinhos de baixa ou nula intervenção ao longo de todo o processo. Também lhes podemos chamar um saudável regresso ao passado.

Conectados com a terra e o futuro

Apoiados em técnicas e sólidos conhecimentos que só já tinham morada num passado longínquo, os vinhos naturais resultam dessa vontade de voltar a respeitar e a honrar a Natureza, os seus ciclos, a sabedoria da terra, a equilibrar alquimias naturais, pouco ou nada intervencionadas pelo Homem, e orientam o palato para produtos menos processados e manipulados por artificialidades. Julia Kemper, nome que engrossa o número, cada vez mais substancial, de produtores seduzidos pelos vinhos naturais, faz uma aposta consciente nessa reconexão com a terra, assume o sério compromisso de equilíbrio entre Homem e Natureza e coloca nas cartas de vinhos, nacionais e estrangeiras, néctares que sabem dar uma resposta satisfatória e conscienciosa a todos aqueles que se preocupam com a origem daquilo que consomem. Uma resposta promotora de um futuro equilibrado, em que a ação do Homem não suplantará nem danificará a da Natureza e onde mais coisas, em todas as áreas, poderão chamar a si o adjetivo ‘natural’.

Boas vibrações

Filhos de agricultura natural, orgânica, biológica e biodinâmica, os vinhos naturais são tidos, por enólogos e apreciadores, como vinhos energéticos, leves, vibrantes, expressivos e com uma pureza distinta dos obtidos por via dos métodos convencionais. Vinhos com personalidade, que assumem cada uma das suas virtudes e características, como gente honrada. Vinhos que galgaram fronteiras, desde que a movida mais alternativa de Paris os adotou pela mão de bares, restaurantes e mesmo algumas lojas de nicho. As vanguardistas Nova Iorque, Londres e Tóquio não tardaram a lançar mão a estes ‘novos’ vinhos, identificando-se com a experiência de novos sabores e apaixonando-se por toda a filosofia subjacente, porque qualquer passo em frente é sempre fruto das vontades coletivas, hoje bastante orientadas para a coresponsabilização individual, já que se cada um mudar, o mundo inteiro muda. Desde esse primeiro sabor a novidade, uma espécie de novo capital social de alguns círculos indie, os vinhos naturais sofreram a crítica dos tradicionalistas das técnicas convencionais, mas impuseram-se, no final, tanto pela paixão da sua filosofia, apoiada em seculares formas de fazer vinho sem recurso a químicos, como pela sua qualidade e pelo seu sabor de enorme vivacidade. Um curto, mas consistente historial, que deixa claro, antes de mais, que os vinhos naturais são tudo menos uma tendência, antes um passo seguro no futuro vitivinícola, não obstante os seus métodos recuarem aos primórdios da produção vinícola, ainda que dotados, agora, de novos saberes e movidos pela urgência de sustentabilidade.

Apetece repensar o batido slogan e dizer: O que é natural é bom!


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