Região Demarcada do Dão – Solo sagrado e milagreiro

Num mágico enclave de felizes circunstâncias, naquela que é desde o início do século XX a Região Demarcada do Dão, perdem-se nos tempos, mas não na memória das gentes, a dedicação da família Melo à vitivinicultura. Um legado que, pela mão de Julia Kemper, dá brado em todo o mundo.

 

Há já quatro séculos que a família Melo tuteia as terras do Dão, solo sagrado da vitivinicultura nacional, com base numa linguagem de total proximidade com o abecê da terra e a sintaxe própria de quem não apenas respeita como ama a Natureza e busca as melhores práticas ambientais, para obter frutos sem comprometer ecossistemas. Uma gramática atualizada, pois que vivemos no presente e encaramos o futuro, mas que traz do passado esse amor primordial, essa ideia de que o elemento humano é apenas mais um a ter em conta, num vasto contexto onde intervenções abusivas não são permitidas e onde agricultura natural, biológica e biodinâmica, vinho biológico e vegan, equilíbrio, amor e paixão não são apenas vocábulos atirados ao vento, nem ao sabor de modas e tendências. Nesta narrativa, a entrega do autor é apaixonada e ela prende-o à terra desde a semente até ao vinho, num ritmo cardíaco que bate a compasso com as estações do ano e os sobressaltos da Natureza e que, em casa de Julia Kemper, herdeira do ancestral saber fazer dos Melo, tem como filosofia “cultivar e cuidar com amor e inteligência”. Por isso, falar hoje de Região Demarcada do Dão ou de vinhos do Dão é sinónimo de falar de Julia Kemper e da sua produção responsável.

Dão é nome de rio e de vinho

Esta poética e agreste paisagem, de solos empedernidos pelo granito e pelo xisto, o quartzo e a sílica, onde se adivinhava que pouco ou nada crescesse, tem a sorte de ser casa de gente sábia e determinada, que soube ler nas entrelinhas e dedicar-se de alma e corpo à terra, dela fazendo brotar extensos vinhedos e um delicioso néctar, com uma personalidade e características ímpares, reconhecido e premiado em todo o mundo. Instituída em 1908, a Região Demarcada do Dão vive de contrastes geográficos, brincando às escondidas com grandes serras, zonas montanhosas e vales, de menor ou maior declive, onde a vinha quase se oculta e convive com vegetação autóctone. Uma ondulação geográfica que amortece o impacto das massas húmidas do litoral e dos agrestes ventos vindos de leste, conferindo à região um clima temperado, frio e chuvoso no inverno e quente e seco no verão. Outro dos caprichos climáticos da Região Demarcada do Dão é a sua amplitude térmica, que favorece nas uvas um amadurecimento longo e lento e promove sabores complexos.

É nesta paisagem de milagres feita, de onde daquilo que parece pouco se faz muito, que se espraiam os ancestrais terroirs de Julia Kemper, e as suas 11 parcelas de vinha que formam a Quinta do Cruzeiro, em Oliveira-Mangualde, entre os 300 e os 650 metros de altitude. É ainda aqui que se perdem no tempo as memórias que a família de Julia dedica à vinha e ao vinho, as quais se depositam bem para lá da data que determinou o Dão como região demarcada.

Nesta métrica poética, imposta pela paisagem beirã e por esta relação visceral entre o Homem e a sua terra, entre Julia Kemper e os seus vinhos, fica bem falar de generosidade, daquela que é própria deste solo e destas gentes, e por onde passa um rio que, brincando com dádivas, ele próprio se chama Dão, palavra adequada, que antes de ser nome de vinho, era já nome de água.


Gostou deste artigo? Partilhe-o com os seus amigos!

Deixe um comentário

Scroll to Top